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As Nossas Voltas

A vida dá muitas voltas, e foi numa dessas voltas, que nos tornamos emigrantes e viemos parar a Paris. Um blog sobre um pouco de mim, um pouco de nós, o dia-a-dia e não só.Simples mas cheio de ternura e dedicação!

As Nossas Voltas

A vida dá muitas voltas, e foi numa dessas voltas, que nos tornamos emigrantes e viemos parar a Paris. Um blog sobre um pouco de mim, um pouco de nós, o dia-a-dia e não só.Simples mas cheio de ternura e dedicação!

VAI MAS É À BRUXA...

No final de Janeiro o hospital anunciou que na nossa folha de vencimento iria aparecer um valor extra, um prémio dado a todos os funcionários (Prime PEPA): 1000 €!

Ficámos todos entusiasmados, havia só "um se não", o prémio seria descontado se o funcionário tivesse estado de baixa médica (a cada dia seria descontado um valor considerável).

 

O ano passado tinha faltado em dois períodos distintos, uns dias quando estive de baixa por ser caso contacto do R e um mês por ter testado positivo, por isso achei que não iria receber o tal prémio...

E embora a maior parte das pessoas achasse que não se justificasse, assim que recebi o salário na conta bancária descobri que não tinha recebido rigorosamente nada...

 

Esperei pela folha de vencimento para ver o que aparecia discriminado e para o meu espanto não aparecia nada mencionado... Nesse dia, cruzei-me com uma colega que tinha tido Covid duas vezes, o ano passado, e ao contrário de mim, descobri que ela tinha recebido o prémio porque as "faltas por Covid-19 não interferiam com o pagamento do prémio". 

Peguei na minha folha de vencimento, dirigi-me aos recursos humanos e perguntei porque motivo não tinha recebido o prémio quando as minhas ausências foram motivadas pelo COVID... Quase sem olhar para mim, disseram que não sabiam o motivo da minha baixa médica e ainda tiveram o cúmulo de dizer que eu não tinha avisado nem enviado o resultado do meu teste positivo, e que agora seria tarde uma vez que as "contas já estavam fechadas"... Fiquei incrédula a ouvir tudo aquilo respondi que toda a gente sabia que eu tinha tido Covid naquela altura, pois tinha coincidido com o período do início da vacinação anti-Covid, além disso em momento algum alguma alguém me pediu o resultado do meu teste positivo como prova, sem falar que não estávamos a falar de um prémio de 10€... 

No final, acabaram por dizer para enviar o teste por e-mail e logo viam o que podiam fazer, mas eu não fiquei satisfeita, e além de descobrir que afinal as tinha avisado de tudo isso por e-mail (tinha-me esquecido completamente, o que vale é que tinha todos os e-mails guardados), reuni todas as provas, pedi ao meu médico um certificado de doença e enviei tudo à Directora.

Um dia depois de ter enviado os documentos por e-mail, voltei aos recursos humanos e entreguei os documentos, com a certeza que o meu problema seria finalmente resolvido... Agora é esperar o final deste mês para ver se me pagam o que me devem...

 

Acho que o R. tem mesmo razão quando diz que tenho mesmo que ir à Bruxa... Só a mim para me acontecer isto!

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RECORDAR É VIVER

Emigrantes em Paris

Faz hoje exactamente 8 anos que chegamos aqui a França para dar início a uma das maiores voltas da nossa vida...

Saímos da casa dos meus pais, exactamente no dia 3 de Agosto, no meu Peugeot 206 comercial, em pleno Verão, com as temperaturas a rondar os 35 graus... Lembro-me do imenso calor que passamos porque não tinhamos ar condicionado... Pernoitamos em Bordeaux, e chegamos ao nosso destino num domingo... No dia 4 de Agosto de 2013...

Lembro-me desse dia como se fosse hoje, cheios de medos e incertezas... E uma desilusão imensa com o que encontramos... Afinal, aquilo que tinhamos idealizado não correspondia ao que tinhamos encontrado... Ruas sujas, casas que mais pareciam abandonadas, e gente que parecia que não conseguia "ver os outros"... À medida que nos íamos aproximando do nosso destino descobrimos que o hospital ficava num local bastante isolado...

 

Dirigimo-nos directamente ao hospital onde ía começar a trabalhar, e no meu francês "tremido", dirigi-me à recepção e tive uma recepção surreal... Mal sabiam da minha chegada e nem sabiam do código da porta de entrada do edifício onde ía ficar... Ligaram para um serviço onde estava uma enfermeira portuguesa a trabalhar, para saber se se lembrava do código, mas também não se lembrava... Depois, ela ligou para alguém que ainda morava lá e conseguimos o código...

Entregaram-me um saco com roupa da cama, deram-me as indicações para ir para o apartamento e as chaves do apartamento... 

O meu coração "batia a mil", e se houve um momento que duvidei do que tinhamos feito foi exactamente naquele instante em que senti que agora apenas erámos os dois... O momento tinha chegado: agora só tinhamos que lutar para tudo dar certo...

A boa surpresa foi descobrir que tinha um estúdio reservado só para mim, por isso o R. iria poder ficar comigo, mesmo que não fosse "oficial"... A má foi ver o estado em que me entregaram o apartamento: cheio de pó, com as janelas abertas e uma temperatura interior a rondar os 30 graus!

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Tinhamos alugado uns quartos durante os primeiros 12 dias, porque o hospital tinha dito que o R. não podia morar comigo enquanto que estivesse no alojamento do hospital, pois iria viver com outras enfermeiras... Felizmente, conseguiram dar-me um estúdio e os planos acabaram por sair melhor do que pensávamos...

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No dia seguinte, apresentei-me no hospital, onde a Directora dos Cuidados de Saúde estava à minha espera, fui apresentada ao serviço e à tarde fomos os dois, pela primeira vez a Paris, onde tive a entrevista na Ordem dos Enfermeiros, com um dos conselheiros da Ordem. 

Comecei a trabalhar exactemente no dia 7 de Agosto... Os primeiros dias foram, sem dúvida, os mais difíceis, entre dominar a língua, a integração no local de trabalho, e a nossa instalação/limpezas no estúdio, mal tínhamos tempo para dormir...

O R. ainda voltou a Portugal, tal como tinhamos planeado, para depois regressar de vez... Dois meses depois tinhamos arranjado trabalho também para ele, e eu tinha o meu contrato indeterminado na mão... A partir daí sabíamos que tudo iria depender apenas de nós dois...

Moramos uns meses ali, mesmo ao lado do hospital, mas foi quando nos mudamos para o nosso apartamento que sentimos que a partir dali as coisas eram "afinal mesmo a sério"...

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ZERO COVID

França

Ao fim de 3 vagas desta Pandemia, e cerca de cinco meses depois do início da Campanha de Vacinação Contra a Covid-19, na qual os idosos foram dos grupos prioritários, ontem tivemos pela primeira vez o nosso serviço sem qualquer doente positivo à Covid-19. Comprova-se assim a eficácia das vacinas!

 

Nem imaginam a satisfação que isto nos trouxe, ao vermos que o número de internados, entre idosos com mais de 70 anos reduziu drasticamente, a ponto de termos apenas 2 a 3 casos positivos em todo o hospital. Sem falar da redução do número de mortos...

 

Com o alargamento das vacinas a outras faixas etárias haverá um menor número de infecções e menos pessoas a transmitirem o vírus para outras. Desta forma, e de uma forma gradual, vamos ter uma diminuição da circulação do vírus. 

 

No entanto, como as vacinas ainda não estão disponíveis de forma equilibrada em todo o Mundo, o vírus continua a propagar-se de forma descontrolada, daí existir o risco de surgirem outras variantes que não terão cobertura destas vacinas.

 

A Ciência sabe que o vírus precisa parar de circular para as variantes pararem de surgir, por isso a recomendação de manter o distanciamento social, o uso de máscara e a higienização das mãos é o mesmo para quem já tomou as duas doses da vacina.

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A vacina atenua a propagação da doença, infelizmente, a sua eficácia não é total, mas a maioria das vacinas tem exactamente esse efeito, tornam as patologias mais atenuadas, sem impedir a infecção. Por isso, mesmo pessoas completamente vacinadas ainda podem ser infectadas, transmitir a doença e até mesmo, desenvolver casos graves. Apesar disso, está provado que esta é a melhor ferramenta que temos, em termos de saúde pública, contra a doença e a redução dos casos é real. Os benefícios estão mais que provados.

AMOR EM TEMPO DE PANDEMIA

Covid-19

Ontem podia ter sido um dia qualquer, mais um dia de trabalho na ala Covid, mas algo muito fofo aconteceu na janela do quarto de um dos pacientes... Tão fofo e inesperado que todas quisemos registar este momento: um casal de rolas a fazer o ninho no beiral da janela!

Eram 8h30, quando íamos abrir os estores, e nos apercebemos que um casal de rolas começava a transportar pauzinhos bem fininhos para a beira da janela, de forma a construir um ninho... Enquanto que um ficava no ninho, o outro "corria" atrapalhado em busca de pauzinhos... 

Ao meio-dia, decidimos colocar um papel na janela e no interruptor dos estores, de forma a que toda a gente tivesse cuidado com esta família especial... 

Às 18h30, um ovinho já lá estava depositado...

Que momento tão mágico e ternurento, numa altura em que nos vemos privados das coisas mais banais...

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Falta agora saber se este casal tão simpático vai conseguir construir a sua família bem juntinho da janela de um dos quartos deste hospital...

No serviço, estamos todos a torcer que SIM!

O VERDADEIRO PROBLEMA

Vacina anti-Covid

No seguimento do post de ontem partilho com vocês uma imagem que encontrei, um dia destes, na internet que faz uma comparação real sobre o risco de uma trombose entre a vacina da Astrazeneca em relação à pílula, ao tabaco e à própria infecção da Covid-19.

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Tenho a certeza que muitos de vocês ainda não tinha pensado nisto!

 

DEPOIS DO COVID

Ontem, um mês depois de ter testado positivo à Covid-19, e ter estado em de baixa em casa, regressei ao trabalho...

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Maldito vírus, não vejo a hora de voltar a trabalhar como antes...

QUANDO A ESTUPIDEZ FALA MAIS ALTO

Enfermeira em tempos de Pandemia

Tinha que partilhar com vocês um episódio que aconteceu no serviço onde eu trabalho, fez ontem 8 dias... O serviço tem três alas, sendo que uma das alas era para doentes Covid... Até que no domingo, dia 17 de Janeiro, uma das doentes da ala não Covid teve a visita do filho...

 

Basicamente, aqui, os doentes internados no hospital que não estejam numa ala Covid podem receber uma visita por semana, de 1 hora, no máximo de duas pessoas, sendo que essas pessoas têm que assinar uns documentos de como se comprometem a respeitar as normas que estão em vigor devido a esta Pandemia (uso de máscara cirúrgica, nao abraçar nem beijar o doente, etc...) e é lhes recomendado fazer um teste para despiste à Covid...

 

Nesse dia, tudo parecia correr normalmente, até que uma colega passou na ala e se apercebeu que o filho da senhora tinha o nariz "fora da máscara", tocava em tudo e mais alguma coisa, estava sentado na cadeira de rodas e na bacia do banho tinha colocado algum lixo... A minha colega, tentou de forma simpática, demonstrar-lhe que não estava a agir correctamente e que estava a colocar em risco, não só a mãe como os doentes daquele sector... Mas o senhor, achou que tinha toda a razão e num tom arrogante ainda a confrontou dizendo:

- E então, o que me vai acontecer?! Nada.

Nisto, e ainda na presença da minha colega, o senhor, dirige-se à mãe, retira a máscara, beija-a na boca e vai-se embora!

 

A seguir a minha colega participou o caso ao administrador do hospital, que estava de serviço naquele dia e, no dia seguinte, o médico ligou ao dito senhor o qual o informou que ficava proibido de visitar a mãe... A estupidez era tanta que o senhor ainda teve o descaramento de insultar o médico... Estamos a falar de uma doente desorientada, com cerca de 80 anos, que tem um cancro, e de um filho que deve ter uns 50 e muitos anos...

 

Quando fui trabalhar, na terça-feira, e me contaram o caso nem queria acreditar nesta falta de civismo. O pior é que 4 dias depois, a senhora, e mais alguns doentes da ala começaram a apresentar febre e outros sintomas Covid... Fizeram o teste para despiste da doença e o resultado foi o mais temido: COVID-19 POSITIVO!

 

Eu, que tinha programado a minha primeira vacina para sexta-feira, dia 22 de Janeiro, não a pude fazer, porque exactamente no dia que fui trabalhar naquela ala, fiquei com alguns sintomas que podem ser Covid...

- "Constipação ou Covid, o melhor é tirar a dúvida antes de se vacinar!" - disse-me a médica do hospital. 

 

Com esta atitude egoísta e irresponsável, tornamos a ficar com duas alas Covid, e eu não pude ser vacinada! Hoje lá vou ter que fazer o teste para despistar se estou negativa para fazer a vacina ainda esta semana... 

 

É surreal como ainda existem pessoas que não acreditam na gravidade desta Pandemia... A isto, eu chamo de ESTUPIDEZ!!!!

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E DE REPENTE JÁ É NATAL ❤

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Feliz Natal a todos vocês! Por aqui estaremos em Portugal apenas no dia 26... "Ossos do ofício"...

E DE REPENTE PASSARAM 5 ANOS

Faz hoje 5 anos que mudamos de país, 5 anos que entramos no nosso Peugeot 206 e rumamos à maior aventura das nossas vidas... Lembro-me perfeitamente desse dia como se fosse hoje, na despedida apenas estava a minha irmã mais velha e o meu cunhado, nessa altura os meus pais e a minha irmã mais nova estavam na Alemanha... Foi tudo tão de repente que acho que só tomamos consciência do passo que tínhamos dado quando chegamos ao nosso destino....

 

Fizemos a viagem no nosso carro comercial, sem ar condicionado, em pleno mês de Agosto, carregados com tudo o que nos fazia falta (e o que o espaço da mala do carro nos permitia levar), com temperatura elevadíssimas... Entre portagens, combustível, e alimentação, lembro-me que gastamos cerca de 300€...

 

Íamos cheios de medos e expectativas... Para trás deixávamos a nossa família, os nossos amigos, a nossa cidade, os nossos costumes, a nossa vida... E o pior, a incerteza de que um dia voltaríamos a trabalhar no nosso país...

 

Optámos por fazer a viagem em dois dias, programamos uma noite em Bordéus e dali partiríamos para o destino final: Ile de France, mais precisamente no departamento 91.

 

Nem imaginam o choque que foi quando olhámos para o GPS e vimos que o nosso destino final era este... Confesso que tínhamos ideia que a França fosse semelhante à Suíça.... Mas não, pelo menos esta zona da França não... 

 

Com o tempo, habituámo-nos a estar aqui, e o que era estranho passou a ser encarado como "normal"... Admito que, mesmo depois de 5 anos passados, ainda não nos sentimos "em casa", e acho muito difícil que esse sentimento vá um dia mudar... É difícil sentirmo-nos em casa quando existe uma grande diversidades cultural, quando as pessoas são totalmente diferentes àquelas que estávamos habituadas, quando as regras a que estávamos habituados parecem não existir, quando olhamos à nossa volta e vemos que ninguém nos conhece, quando constatamos que aqui é cada um por si e dificilmente há alguém que se ofereça para ajudar de forma gratuita...

 

Se pudéssemos voltar no tempo, tornávamos a fazer o mesmo, voltávamos a fazer as malas e a emigrar... A emigração mudou a nossa visão sobre o Mundo, sobre Portugal, sobre as pessoas mais importantes na nossa vida, sobre o que é realmente mais importante na vida, e sobre o que vale a pena lutar... Tudo ficou mais claro na nossa vida... Hoje sabemos que não há riqueza maior que a nossa família e o seu nossos amigos, aquelas pessoas que mesmo ausentes estão sempre presentes, aqueles que todos os dias nos dão uma força, e cada vez que voltamos estão de braços abertos à nossa espera...

 

Ao emigrar para aqui, ganhamos a nossa família do coração, aqueles amigos que tal como nós decidiram sair de Portugal porque não tinham trabalho... A vida foi ficando mais fácil quando percebemos que não estávamos sós nesta aventura... E é graças a esta mini comunidade portuguesa que fomos formando, que conseguimos tornarnos mais fortes... Hoje sabemos que quando regressamos de Portugal temos a nossa família do coração aqui...

 

Perguntam-nos muitas vezes se vamos ficar por aqui, e não consigo negar o nosso desejo de um dia voltarmos a trabalhar em Portugal... Queremos que a nossa passagem aqui seja apenas mais uma grande volta que um dia demos na nossa vida... Não nos conseguimos imaginar aqui por mais 5 anos, e só rezamos para que tudo dê certo... Todos os dias tentamos ser positivos.... Todos os dias procuramos acreditar que o nosso regresso a Portugal será ainda mais fácil que a nossa vinda para aqui...

 

Temos medo de um dia acabarmos como os portugueses que foram ficando por aqui, com um grande arrependimento de um dia não terem voltado para Portugal, porque deixaram passar os anos e não tiveram a coragem de arriscar, porque é preciso uma coragem ainda maior para tornar a arriscar e voltar a fazer o caminho de regresso a casa!

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FAZ HOJE 4 ANOS...

... Que fiz o meu último turno no Hospital de São João, no Porto...

Lembro-me desse dia como se fosse hoje, 

e quero guardá-lo preciosamente na minha memória...

Acho que foi nesse dia que caí na "realidade" e tomei consciência 

que a nossa vida ía mudar radicalmente...

Não nos arrependemos do que fizemos,

e voltávamos a fazer tudo outra vez...

Mas confesso que ainda hoje temos saudades daqueles tempos...

 

Não quero parecer lamechas mas senti que devia

relembrar este dia, com uma das imagens, das muitas mensagens, recebidas 

quando decidimos emigrar para aqui...

❤️

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